domingo, 19 de dezembro de 2010

Refúgio exúvio etéreo

Fogem-me as borboletas




no ramalhete silvestre




Sob o disfarce de libélulas




pressinto-me ao avesso




no espelho d'água




Areia meu esconderijo




o brejo urbano




em bando defendem-me




aos alarmes pássaros tejos




Cobrem-me beija-flores




com asas helicópteras



Uma página em branco



me torna um invisível prestes



em nuvem



Meu silêncio se refugia em



tempestades de verão



enquanto meu coração



viaja ao som de trovões



ensurdecedores
Meu belo cavalo alado
o azarão
de unicórnia lança
me leva no instantâneo raio
antes que a mutação da vida
cesse minha paz e minha guerra
com uma pá de cal
formol
em bacia inox retangular
Levem-me, amigos, até onde nem a vista alcança
Levem-me, amigos,
para o boteco sideral mais próximo
na esquina cósmica da contramão
para transeuntes e motorizados
principalmente os que vêm atrás
e os que não saem do lugar













sábado, 18 de dezembro de 2010

As miragens celestinas


Gosto de andar pela casa

e seus caminhos

uns ajardinados

e floridos

outros acomodados

e bem servidos

cada cantinho

tem um carinho

apesar de simples

e pequena

cresce na luz que entra

na luz que sai

o branco, o safári,

a palha da taquara,

os desenhos em ladrilhos antigos pelo chão de cimento

os cabides de roupa

amadeirados

outros em ferro desenhado

rosas e guarda-chuvas

fechaduras grandes

quase tudo na cor da bandeira italiana

em plena edificação colonial

suas linhas retas

suas telhas encoxadas

as pedras são tomé

outras de vários recantos

que enfeitam muretas

mas é na cabeça do quintal

que passeiam as nuvens

das quais amamos as conformações

de vento em vento

passam do brocado

ao liso esvoaçante

quase que instantaneamente

vestindo o plácido azul

celestial

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Novos dias, novos rumos, a véspera de nós mesmos

Apesar de toda a euforia
política e institucional
angariei sonoras perdas neste ano
caladas, vagarosas, intensas,
a maioria
presumo
de prejuízo irremediável
O ganho partiu-se de outra esfera
em partículas
assim como me parece
a nobreza estelar de pleno desconhecimento
das necessidades quando se é, ainda, humano
pergunte-se onde larguei o ser
Sei Lá.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Eliodora é Bárbara


Fomos numa manhã de sábado

até sua casa antiga

teto baixo na entrada

janelões, taquaras, cômodos desnudos

Ao nu está seu busto de bronze

no jardim pelado

e nos olha dentro enquanto é fora

Nos olha fora enquanto é dentro

bem defronte, a imponência colonial

religiosa

nada franciscana

mas de São Francisco em torres

sinos, escadario

verte o cinza e o cobre espesso

Contrasta com suas paredes brancas

e janelas azuis royal

Sua imagem se veste férrea

assim com foi a sua história

de mulher
(para saber mais só indo a São João del Rei-MG-BR)

A falta preenche tanto espaço que até faz falta um espaço

O silêncio posto a ferros
gruda feito chiclete que se mastiga
sozinho aos berros
como um espichar viscoso
e perfumado de dentes e língua
baba no decote sem alça
um cuspe à míngua