terça-feira, 23 de março de 2010

nuvens sobre a cidade que me levam de casa em casa



vôo sobre a Pampulha


a bordo do ERJ 145 Passaredo


é manhã de nuvens brancas


as que polvilham um fim de março


e início de outono


asas leves que me levam


de casa para casa


vamos farejando e lambendo


obras históricas e suas curvas


suas cores


suas perspectivas


que abrem horizontes


cada vez mais longinquos


cada vez mais pertos.


Estão lá Niemeyer


Portinari


Burle Marx


Juscelino


São Francisco


Iemanjá


Sobrevôo meu próprio


acaso


percebo que o distanciamento


me aproxima


e vejo mais cada detalhe


ao longe


ao longo e


quanto mais me distancio


mais perto estou


Sobre nuvens


na poltrona C 11


a janela descortina


ninhos etéreos


despojados


lá atrás um aceno


ciao


um alô


tchau


se aproximam


canaviais


telhados


calor


saio do meu quintal tiradentino


do meu astral bhzontino


chego na minha sacada


buritizando


bem cedo


em Ribeirão Preto


de novo


em casa.

quarta-feira, 17 de março de 2010

grávidas de vós

lá vão elas


parecem protótipos


iguais às avós


mães saturadas


redondas


cheias de tudo


inclusive de nós


por que?
ainda despejam seus semelhantes
na terra
por que?


porque apanham


porque imitam


porque não têm o que fazer


porque são meras reprodutoras


porque enganam seus reproduzidos


que concepção!


da decepção


empurram seus umbigos
salientes


calçada e rua


afora
espetam filas de banco, ônibus, restauranre
de quebra carregam o pai
com dimensão de toucinho igual

dialeto do teu murmúrio inquietante

vem do mar africano
teu perfume
de banzo

daqui posso ver o brilho negro dos teus olhos

claros
geográficos
cintilando

na proa da noite

em pleno oceano


em seu horizonte descravizado


ondas sobre ondas


escrevem tuas palavras sem amarras


até a praia


como espuma de sândalo
e lavanda


que a lua nova espia












terça-feira, 16 de março de 2010

O desaguar do Elvas, Tiradentes-MG

Uma pequena localidade
próxima à Tiradentes,
ainda resguarda a simplicidade
distrital
com escola básica
bem frequentada
e assistida
venda
bar
campinho de futebol
emoldurada por
muros de bambu
serra
e tranquilidade
A vizinhança conhecida
que se acanha
de moradores
cresce em familiaridade
Ali está o Rio Elvas
margeando o rural
com pontilhão para Maria Fumaça
margens naturais
No topo
da colina
estradinha de pedras e terra
serpenteia até
a singela igrejinha
Padre Gaspar
do século XVIII
- zela em descanso
crença e fé

segunda-feira, 15 de março de 2010

quintal de cochichos e milongas

à boca pequena
desfia-se um teretetê
entre pardais
beija flores
cabecinhas de fogo
cabecinhas pretas
galinhos da serra
pombinhas
sabiás
tejos
tucanos
cambacicas
sanhaços cinza
andorinhas
curruiras
joão de barro
que semeiam
barulhinhos de filó
atraem borboletas
em conversês
esparramam casquinhas
de aspiste, painço
linhaça, senha
miolinhos de pão
numa musicalidade
que convida
ao pé de ouvido
silenciosamente
a um valioso e irreverente
trololó
afinadamente...