terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

José e Alice, meu pai e minha mãe no início de 1973

Tão raros e tão comuns
Como julho e agosto
como arecas e bicos de papagaio
como Itália e Líbano
como 1915 e 1929
como São José do Rio Pardo e Itirapuã
como Brasil em São Paulo
como São Paulo no mundo
como Fagiolo e Felippe
como Giuliano e Badra
Como Naila e Willian
como Lúcia e Mirian
como Analice
como tabule e pão d'agua
como graxa e azeite
como coração e psique
como 1973 e 1976
como Evelise e Diego
José Domingos e Liliane
Ana Antonia e Luís Paulo
Alice Maria e João Francisco
como preto e branco
como sorrir e chorar
como viver e conviver no limiar
do oposto
ao avesso da morte
e sobreviver
ao sabor
do efemero
generosamente prolongado
como lembrar e não esquecer

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Era um jardim, virou praça, virou avenida, virou o que virou

E eis que nasceu um cacto


demoradamente
o vaso de cerâmica com bicos de papagaios
que adoram a estiagem
folhinhas de comigo ninguem pode
orquideas
um catavento que vai desbotando
alegremente
gira e gira
ao vento torto
enquanto as nuvens em desabamento
abotoam a cidade e suas ilhas
de aquaplagem humana
Veem à tona
rapidos e frescos
pingos
da chuva
Corpo boia vivo
ou morto


sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Thenorinha, a jabuti e a cã botequeira Gueguê(primeiro meio capítulo)

Gueguê, na verdade, se chama Greta Garbo
sua nova amiga, Thenorinha Barriquela Ferrari,
a jabuti que nasceu 'Flor do Pantano'
Mas, essa confusão toda
não pára aqui
Vai longe
e se depender de Thenorinha
o longe é mais longe ainda.
Ambas gostam de andar pela grama
fazer xixi nela
ficar ao sol da manhã:
- E, aí, branquela peluda, lá vem água, de novo. Vai ficar para se molhar?
- Não amola, cascuda, chego ao sofá mais depressa que você.
Nenhuma das duas gosta de chuva, ao menos
no pelo, no casco,
molhar as patinhas.
Gueguê fica refastelada sobre almofadas
na varanda e se der trovoada, pula em cima da cama.
Thenorinha se esconde atrás de vasos
em cantinhos sombreados
sobre a pedra São Tomé
ou 'corre'para debaixo de qualquer móvel.
Ela gosta mesmo de ficar atrás da geladeira.
- Aqui é quentinho...
- Aqui é macio e tem o cheiro de minha dona, diz Gueguê. Se eu sentir frio, ela vem e me cobre.
- Ela me dá uma comidinha muito gostosa. Frutinhas, verduras e uns grãosinhos macios..
- Ah, isso é bom mesmo. Gosto mais do chamego que ela faz pra eu comer. Mistura aquilo um com aquilo outro e coça minhas orelhas. Eu queria um bifão com osso, mas não posso, tenho que fazer dieta.
- Ah, eu gosto do meu cardápio, tem um pouquinho de mato, de farelo, de planta.
- Ruim, hein.
- Nada, é uma delícia. Depois eu durmo bastante.
-Ah, eu gosto é de um bom passeio, ficar olhando a rua, sentar na mesa de boteco. Minha dona me leva sempre que pode. Ponho o focinho na mesa e fico lá quietinha. Aí, vem um e diz 'que belezinha, colerinha de fuxico, não pega nada no prato, só toma aguinha gelada...' Tiram fotos minhas. Só não gosto de gente que vem me passar a mão. Humm... não teem o cheiro da minha dona
- Eu gosto que afagam meu casco. Tenho muita coceira e não posso me coçar, minhas patinhas são curtas. Também gosto de terra,buracos, vegetação, mas essa de boteco, não conheço, não. Será que a minha dona me leva algum dia? Eu durmo muito. Posso dormir na mesa, também?
-Ih, cascuda, você é muito pequena, ainda. Num dá não. E não é qualquer lugar que nós bichinhos podemos ir. Os humanos não gostam. Dizem que levamos micróbios e sujeira. Imagine! Eles que já carregam tanto dentro e fora deles mesmos. Já viu o banheiro que eles usam? Um nojo! E a cozinha? Mas,quando você crescer mais, dou um jeito de você ir junto...






quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Falência múltipla de órgãos pensantes

Ora, ora, se não ,
a ilusão


que se esvai


no bueirão


das chuvas de verão


e tudo embarca na enxurrada


de roldão


brasil, brasil


lá se vai também


a indignação


intelectualizada


é crescente a lua


da admiração para o que,


no passado da intimidação,


ceifou, sem gloria,


vidas
Como, agora, brilham
o verde oliva
o coturno
o fuzil
institucionais
Contos de fada
se tornaram reais
assim como algumas candidaturas
presidenciais
Aprendi, desde pequena,
aquela cantilena
orai e vigiai.
Hoje,
cheirai e vigiai...

Carnaval com broa de fubá , recheio de uva e molho de cana


Vida boa, ôo

é ficar à toa

esperando a maré baixar

Vida boa, ôo

é a chuva de garoa

que molha sem estragar

Vida boa, ôo

é ter nada que doa

e se doer

tem jeito de sarar

Vida boa, ôo

é ter uma canoa

e vara de pescar

Vida boa, ôo

é ficar na proa

pro barco descer o mar

Vida boa, ôo

é ser gente que voa

pra asa não desacostumar