quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Um vento de luz


Já vai para o final de tarde

depois de uma chuva leve

e suas nuvens revoltas

para chegar com elas

o vento que bate portas

range o portão

abre janelas

balança os galhos

esparrama as flores

no chão

brinca com os pássaros

com asas e pétalas

assovia na passagem

e deixa a casa escancarada

para a luz do verão

(foto em Tiradentes/MG/BR)




domingo, 17 de janeiro de 2010

Quando se perde a noção do tudo e dá de cara com o nada

Algo cai na sua cabeça


abre brechas na sua vida


com novas e horripilantes perspectivas


implosivas,


dessas de arriar o costado,


de levantar a tampa da sua privada
dar descarga sozinha
limpar a pia da cozinha
vê aquele vizinho irritante
com som entre sertanejo e sei lá o que
ensurdecedor


escorregar encosta abaixo


junto com ele a prole


de filhos e parentes


de uma só tacada


lá se vão
- voce trinca os dentes
sufoca aquela gargalhada-


a dívida, a sogra, o chefe,


os bastardos com seu dna
a mãe, a mulher, a amante


- e o que voce faz?


desce o morro e pede socorro.


Faz aiai...Imita o gato, miau


Obvio


voce não é nada


E voce?


Com sua barriga-creche
aluguel de provetas
de auxílio-berço, que entra em fila
de cesta básica, kit geração 2050,
alisante para cabelos rebeldes
bronzeado em segundos,
seio em pé,
bunda pipa
pança jararaca
tudo faz de conta
menos pagar a conta


exibe sem ver
seu decote


em V volumoso de
vitrines R$ 1,99


seu bate-boca banguela
com a vizinhança


sua panela de mirrados
faz o que?


cai de cocoras
com as pernas abertas


e não levanta mais


cre que seu ato é so parir fulaninhos
e sustentar a fábrica de
novos escravinhos...







A rua de casa em perfil egípcio



Começa com 200
Recanto
Ao pé da São José
Biboca
Nativa
Predileta
De concreta

Em felizes momentos
Conhecido
De apelido
‘Mococa’

Chuveiro duchão
No arredor
de fora
As ‘São Tomé’
Para alisar
O pé no chão
Lustre marroquino
No corredor
Lanternas de cor:
Garagem e entrada
Não me apresso
Para descrever
O resto...

(em 16/09/2009)







sábado, 16 de janeiro de 2010

O aborto da natureza em terceira dimensão

Qual é a verdadeira face da pobreza?
E qual é a cor que ela tem?
A dor da miséria e da catástrofe
doi mais em quem?
Os despojos de vítimas fatais
de hecatombes naturais
são espólios da humanidade?
Quem vai adotar os órfãos?
Quem vai alimentar os aleijões?
Quem vai sustentar o sobrevivente?
Dar água e limpar a sujeira do que era uma cidade?
Recompor o chão?
Reconstruir um lar?
Afagar o cão?
Qual é verdadeiramente
a ação do semelhante ao assemelhado?
Por que há uma direção única
de socorro
quando ainda há centenas de milhares soterrados pelo
preconceito e pobreza
em seus próprios territórios,
esses obviamente condenados à extinção pela exaustão?
Mas, os conhecidos abutres alçam vôos além mar
em seus veículos abarrotados de equipamentos ,
junto ao sobre peso de voluntários solidários na ajuda
visualizada e disseminada
bem pagos , diga-se de passagem, brancos, bem nutridos,
e com dinheiro ainda mais,
doados pelas divindades terrenas
e outras moedas
subtraidas de nossos impostos
suorentos
- clicados com faces benevolentes e heroicas
atraves da onipresente midia
Milk shake of the band aids
Cada bando e matilha
brigam pelo palmo de cooperação
Imposição.
Hierarquia. Patente. Armamento.
Tecnologia.
Usucapião .
Disputam cada centímetro da tragédia.
Enquanto a própria se decompõe na sarjeta,
sob sol intenso, muitas vezes descoberta,
exalando seu cheiro fétido, sua deformidade,
sua careta de espasmo insofismável.
Aqui, mesmo, há mais e mais
semelhanças quotidianas.
No vizinho, ao lado, no quintal, no onibus,
na escola, no quarto, banheiro, na esquina,
no dia e na noite, no berço,mundanas.
Quem se importa?
Já vi muita porcaria, mas,
Clinton, Bush e Obama?
Doce triunvirato de comadres.
Eis a comédia.
Só faltou a valiosa adesão, depois da honrosa permissão do espaço aéreo de Cuba, de Bin Laden...

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Ô, Humanidades, lembram-se de Biafra? Ah, o mundo não era globalizado e nem havia internet...A dor era longe demais para ser 'sentida'....

Devo perguntar ao Caetano,
de novo,
por que ele disse 'o Haiti é aqui' em 1993.
Ou ao Gil, mas este é presença invisível,
que ótimo:
... o Haiti não é aqui.
Sei lá, um ou outro. Qual a diferença?
Creio que foi graças à rima.
Sem pregos e cruz.
Lembram-se de Banda Aceh?
Álamo?
Melhor ainda: Pompéia?