sábado, 19 de dezembro de 2009

Fio Terra III (Vale dos Dinossauros/foto by Marialice)

Ao fundo,
o tabuleiro de São Sebastião do Paraiso (MG)
Aqui era um Vale
agora desce em vertigem calma
pela Mococa / Cajuru (SP)
e já se vê toda a palma sem
ferradura
do que se diz humano
arranhando a terra
com garras de
trator
À beira da estrada
a cor roxa
hematoma...

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Pagode da cor branca contagiante

Não deixe pra lá,
não,

irmão,

arregala o olho,

o cara escuro foi lá, aquele de falácia

macia,

de todas as línguas

à boca pequena,

com megafone ,

de última hora,

gravata,
postura,
elegância estudada,
discurso na mão,

feito rainha ,

pinta de bacana,

é mais um infame .

Quem mandou querer mandar

no planeta desbotado?

O primeiro bronzeado
ao natural,
chega à primeira potência,
comedido,
educado em phd,
postulado em leguedês,
de origem
miscegenada,
como eu e você,

agora se acha também dono do Planeta,
multifacetado,
um prisma
de lânguida lente
zumbindo visões equivocadas,
pelo certo e errado,
vá lá,
viu o cofre abarrotado.

Imagine,
pálido,
no vacilo,
acorda do cochilo graduado,
sabe, o gentleman impostado,
ao dançar,

tropeça no swing,
no rebolado ,
pisa no rabo da saia da
grandona,
amorenada

-o que era um doberman -

agora só falta miar

Imagine, de novo,

com duas menininhas

de chiquinhas

pra criar,

a mulher cheia de coxas

e com horta para cuidar..

- Vende a mãe! gritam

Não perdoa, mano,

ele já vendeu...

Vende o pai! gritam

De novo,

em coro,

quebra a banca:

o pai já morreu,

virou

farinha de ossos.

A mortalha-cofre
globalizada,
não esvazia,
só transborda.

Venda-nos! diz o velho mundo
Não vale,
já foi loteado.
Compre-nos,
diz o novo mundo!
Nem pensar,
já foi saqueado.
Paguem-me
o triplicado!
Barganha.
Nem adianta,
ele já é membro do seleto clube
do lucro e ganância.

Não há perdão,

irmão,

a cor branca

contagia...



quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Tear de Emanações (para minha querida irmã Naila, a própria)

Ainda usas as tuas mãos
para imantar-te de sinergias
e tecer o manto fluídico
que acreditas ser o teu escudo
e desenhas a bainha com palavras
mântricas
feito agulhas
ao bordar preces
ao que vestes.
Respiras os matizes
serenos das tramas
em cores amenas
para que teu sono
adormeça as dores
que acordam teus dias
de fibra
e repetes, linha por linha,
tua oração de sarja,
matéria-prima rústica
do teu pensar artesão.
É com teus retalhos de vida
que iluminas de cetim
tua escuridão,
maneja a cala de tua teia
e a semeia por aí...

'menino vodu'

bicho papão
cabra cega
mula sem cabeça
boi da cara preta
coelhinho da páscoa
papai noel
bruxa
homem do saco
saci pererê
curupira
caipora
- se eram personagens
de uma fantasia,
dessas que povoam
a infância brasileira,
que nos visitavam à hora de dormir,
de boca em boca
trazidas pelas gerações antigas,
muitas enxertadas,
importadas,
inventadas,
que importa,
ao sobrevivermos
sem divãs,
na vã ilusão
da sanidade,
agora,
tatu,
inclua mais
em sua
civilidade,
o padrasto de Barreirinhas...
quem vai contar ao menino
que os monstros são de brincadeirinha?....

Fio Terra II, 'detalhe' na margem esquerda, rodovia Mococa/Cajuru (do portfolio de nuvens by Marialice)