terça-feira, 3 de novembro de 2009

Aos borbotões de ventos

Joga-me fora de dentro
do teu colo
ainda que me desfaça
ao tatear
tua couraça
- nada de estanho
ouro
cobre
prata -
és um reles
cristal perfeito
translúcido
danças
dependurada
com os cotovelos
na sacada
o vento
levanta
e assovia
tua regata
nada recatada
pensas?

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Os cara-de-peia

Silvícolas, selvagens



rudimentares,





parecem canga de muares



não são



cafusos, mamelucos,



caboclos,



feitos de



fibras de aniagem



estopa humana



choupana,



roça



seca



cacto



calangos



candangos



mulambos



resistem à estiagem



crescem



no barro com cuspe



sangue



no mangue











Antena de TV em UHF






na ponta um pedaço de bombril






goteira no telhado






nos trapinhos de retalho,






nasce mais um desbatizado,






cuspido na bobeira






ah, estão por toda a parte




à esmo,




chabu de fogo cruzado,




expulsos da placenta de matilha



herança da monarquia



frutos podres da república,



também crescem,



se vingam



matreiros da cilada,



emboscada,




gostam de tecos em nucas,




têm graves problemas com o olho a olho,




transitam em mulas




e outros lombos




no círculo quadrado,





com documentos falsos,




gravatas de cadafalsos,




penduricalhos de espelho de carro velho,




ignorantes, atrasados,




covardes demais




para serem homens-bomba,




preferem











terça-feira, 27 de outubro de 2009

choro-melô do samba

benedita
benedita
presta atenção
tu tá ficando
malvista
malvista
a dobradiça
da tua alma
faz aiai
no requebrar
de salão
teus olhos
de vidraça
se estilhaçam
com a bala perdida
do meu
penar
benedita
benedita
vai devagar
senão
sacode
com o seu decote
a noite
no choramingar ....
.... (freio de mão-boba)....
da sua anca
se manca
benedita
atende o meu
celular...
aiaiai
o que será da benedita
aiaiai
será? benedita!!!

sábado, 24 de outubro de 2009

Fábula do Papaigaio Testamenteiro e a Cã Botequeira

(Os nomes desta Fábula são verdadeiros, mas as histórias os inventam para dar pistas concretas de uma realidade pra lá de cruel com outras personagens, tale quale...)





Subitamente, sem nenhum motivo aparente, lá está a luz vespertina, cheia de mormaço grudento, carregando o meio da tarde no suor do sovaco, tão lentamente que o mais novo e orgulhoso papai do Planeta, o Papaigaio Testamenteiro sacode as belas penas, preguiçosamente, e ensaia um balé de ventilador colibri , direcionando suas garras afiadíssimas ao belo infinito de telas e galhos de árvores. Aproveita e dá uma cagadinha no chão de cimento lá embaixo. As folhas de seu puleiro estão meio encolhidas, encaloradas, murchinhas, aninhando
a bela fêmea e o seu ovinho. Kheo, eis o nome do Papagaio Testamenteiro, imagina que seja o pai.
Seus companheiros de cela-árvore urbana também...
(saga psitacídea continua ...)

Matadouro 21, Humanos: DNA Bovino em essência

Quadrúpede com asas, guelras, penas, escamas, bicos, pelos e chifres: bípede
Chapéu de cobra
cinto de boi
sapatos de jacaré
botões de elefante
calças de vaca
camisas de bicho-da-seda
gravata de peixe
luvas de gorila
estômago de javali
sangue de novilha
cílios de taturana
peito de pato
pescoço de frango
óvulos de galinha
fígado de ganso
tripas de porco
medula de rato
pele de rã
leite de búfala
ossos de titânio
dentes de porcelana
unhas de resina
meias de petróleo
paredes de barro
teto de floresta
fome de lobo
coração de ovelha
instinto de leão
coragem de hiena