terça-feira, 12 de maio de 2009

ser humano e derivados

Somos uma família viral
veneno que se nutre do próprio antídoto
já sem efeito a não ser os digitais
espécie insustentável
contraida
pela percepção equivocada
ilusória e iludida
nada vital
simplesmente
mortal.

depurações outonais, de praxe...


até mesmo as pedras se movimentam

as árvores sacodem seus galhos para desnudarem-se das folhas secas

os rios em cheias revolvem-se e desmolham-se do lodo e entulhos

os ventos espanam a poeira e os ciscos

os pássaros deixam velhas penas e revigoram a muda

o outono é a silenciosa transmutação

depura a natureza, de que espécie for

adormece e resfria sua lida

sua poda necessária e natural

calmo, imperiosamente,

afaga o desembestado novo

invernal, hiberne

todos deveríamos humanos

ter o mesmo movimento, em nós

como o dia e a noite

como o beabá

podemos habitar torres e porões

revisitar o passado

exorcizar fantasmas

não alimentá-los.

A folha será sempre a quota da natureza.

O ser humano é o verme que o come, devora, devolve-o

à sua cama

de terra e pó.

sábado, 9 de maio de 2009

Dragonas-mãe


Ao suspirarmos
alastramos o germe da incupideza;
ao tossirmos,
lançamos no ar
o vírus de indelicadeza.
Ao mirarmos o horizonte,
desvestimos o decote
da natureza.
Mexendo as ancas,
desbancamos a subréptil
dureza.
Nossas lágrimas
derretem o grifo tatuado da
safadeza.

Choramos em labaredas....
Basta piscarmos os cílios,
nuas se tornam as cruezas.
Um gemido gutural
aciona estranhezas da terra.
Mas, com unhas de aço,
poderosas, como argolas,
arranhamos de leve
a carne humana, da qual
jorra toda a estupideza.
Não comprem panelas,
processadores.
perfumes,
flores,
camisolas,
geladeiras,
fogões,
esmaltes,
viagens.
Nem jantares e velas.
Basta seu tropeço
de bípede,
a súbita
noção de toda a sua
pequeneza...

Unge toda nossa
fronte realeza.....






Esmague e triture a sua idéia de gente...

Quero abobrinhas
salsa
cebolinha
quero alface lisa
brócolis
hortelã
erva-cidreira
pimenta brava
de arder,
vermelhas, verdes,
as de ver e as de comer, aliás,
são todas
verdadeiras.
Almeirão,
tomate de montão,
rasteiro, de pé.
Como chuchu.
Louro,
abóbora,
laranja,
limão-cavalo.
Jabuticaba,romã,
mamão,
bananas
em cacho,
espremer,esmagar,
cuspir sementes, como pássaros.
Beber, solver,
como borboletas.
Flores
aos borbotões,
botões,
cajus,
maracujás.
Mangas.
Uvas-vinho.
Abelhas,
centenas, milhares,
milhões, milho.
Plantares.
Fubá.
Mandioca.
Ah, o principal:
ouvir e conversar, nessa língua faminta,
assim.
Capinzal.
Aranhas, bigatos,
minhocas,
lagartas,
lagartos,
calangos.
Espinhos.
Sem-vergonhas.
Assanhaços.
O vento, a brisa, a chuva.
Lá vem o sol.
A salada, o chá, a sopa, o café.
O café, o pão, a nata, o chão
o céu invertido
A bengala, a muleta, a atadura,
o curativo.
A alma, o espírito, o corpo, a dor
a roupa, o desastre:
O óleo, a fritura, a carne em assadura, a dor, o desgosto.
A matança para a fome.
O crime é o bicho pego no laço covarde, traiçoeiro.
Para você, ocupado o 0800 do éter.
Ninguém fala mais no grátis .
Principalmente o céu.
De que céu você pensa vir?
Preste atenção.





por um fio__________________________________


Há ainda,

em algum lugar do planeta
um riacho,
diacho, tem que haver,
onde
a água escorre lentamente,
muito limpa,
transparente,
dá para ver peixinhos
e seus burburinhos
um pouco mais além,
tem também,
um recosto de água
cheio de taboas
ali, mais adiante
o tempo flutua,
escorregando pela margem
levando
cores, luzes e sombras
na imagem
lânguida e distorcida
da paisagem.