quinta-feira, 16 de abril de 2009

À luz do dia-Primeiro ato e meio

Na abadia
À luz do dia
Uma jarra de água resfria
Sob um dos arcos
Que tal ajuste
Media
Exatamente
Dois noviços
Em seu
Primeiro
Dia.

Para assistir aos ofícios
Se pedia
Silêncio e respeito
Mais a oração
Que se anuncia
E de todo jeito
Um mistério se pronuncia.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Conversês de Cozinha-Abreato

Idade Média (das personagens): 178 anos
Alho e azeitonas pretas grelhados
sementes de tomates ao caldo de romãs, com riscas de camarão e tirinhas de dedo-de-moça

Primeira Idosa (sem bigode e com o cabelo
lilás) – Se você decifrar o passado, certamente encontrará o futuro.

Idoso II (com barba e costeleta /de porco/ nas mãos): Os cientistas vivem fazendo isso
para justificar sua própria ignorância sobre o desconhecido.

Idosa III (de
bigode – problema hormonal) – Todos eles, para mim, parecem mais leigos do que
estudiosos. Não são eruditos, são? Leigos, talvez. Pianistas ou onanistas,
sabe-se lá...


Primeira Idosa Lilás- Leigos? Isso me parece coisa de primeira
comunhão!...Perdi o confessionário. Entrei na latrina. Era noite, não me lembro,
chovia, não me lembro, por que me lembrei?... (coçou as rugas)

IV Idoso (de
pele acetinada e lábios carnudo, avermelhados, sobrancelhas em lápis da mesma
cor...aparece de chinelos) – Não gosto de religiões. Parece-me infantilidade
mal-resolvida.

Idoso II – Freud tinha razão, então? Ou será Marx. Ou ambos,
sei lá, os dois tinham barba, não?

Idosa III – Gosto de rebuscar o passado,
não de redesenhá-lo como fosse descrição tiradas daquelas folhinhas bucólicas do
jardim-de-infância.

Primeira Idosa (sulferina) – Ou primata?

Idosa III(de pelos ruivos) – Qual a diferença?

V Idoso (chega sem sandálias, pés
muito alvos, de cuecas sob o roupão aberto e desengonçado) – Chiii, que conversa
é essa aqui? Cadê o chá? Tem conhaque? E o cigarro (tossindo...)?

Idosa III
– Quanta pergunta, idiota. Diz que você não é o famoso molóide? O famigerado
verme?
Idoso II – Ou debilocéfalo?

V Idoso – Ah , vão banhar-se na lama!
Vão!...Tudo aqui está é muito velho.

Felinos


Silenciosos, espreitadores, resvalam pela noite atrás de luas novas, mariposas, aleluias, vaga-lumes e estrelas cadentes.
Deslizam pela relva sem a comunhão que se estranha , num cheektocheek à maldição da caça noturna. Lambem patinhas.
Felinas,cativas do cio, furtivas, ativas, sem emitir um som, redesenham sombras à mercê, talvez, de algum cupido vira-lata. Ronronam.
Astutos, instintivos, afiam as garras na luz de seda das manhãs, depois de longa e sussurrante serenata de miaus. Lânguidos.
E brincam entre hibiscos, bicos-de-papagaio, arecas- bambu, sapatinhos-de-judia, barrigas-d’água, patas-de-elefante, moisés-no-berço, debruçando-se no bambu mossô.
Felinos
Preguiçosos caçadores de quartos-minguantes.

Trilhos


Tu tá de novo mirando o penhasco da insatisfação ou só comendo banana com casca?



Ouça o trem
lá vem
sabe-se lá com quem

Na sela
Não durmo sem o arco
e a esticadela
a mão cheia no alvo
em seta
delicada
secreta
apontando direta
e firme
pro coração dela

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Olympus OM-1 20/09/2007 -17:23h



Photograph ‘in’ brodo

Uma meia lua ao inverso
Meia circunferência ao avesso
Um bote escorpiano ao contrário
O mergulho no raso com arremesso
De corpo pelas costas como arco
Lá vai Méria di Méria
Sem eira nem beira
Desenha com brevidade
Um salto de piscina pelo alto
Riscando a gravidade

Amigos

Um Zé
Um Pedro
O sobrado
A escada
À noite
Teatro, em segredo: talento ao esmêro
De boite
Chicote e estrasses
Íntimo sem peças íntimas
Lá está aos cogumelos,
Alcaparras,
Forno de praxes, risotos dylans,
Geladeira em xeque,
TV na ponta dos dedos
E finais de semana
Em leque:
Ui, me abana....

Merecência

Faz tudo o que te compete
Rápido, rasteiro, devagar
Com paciência
Faz o que te dá na telha
Com eficiência
E te cabe materializar, sempre, a complacência

Sogima 2007


Fujo,
Fujas
Foge tu, tatu
Fui
Foram
Foi-se
Vai
Vão
Fumos (everybody, sorry)


Série: o crime mora aqui

A madrugada em silêncio
Na relva, dobra o lençol
A noite, enrola suavemente
O som
Abafa a vizinhança
Do crime
Em formol
Criança
Casal igual
Violento
Fechado
Entre quatro paredes
‘made in normal’
Caro policial: preste atenção vital
Eles só vivem de aparência
Seu trabalho crucial é
Encontrar evidências
Repara: tá na cara!