sexta-feira, 10 de agosto de 2012

A nave estranha do estranho

Apenas um zumbido,

claro, preciso,

que parece mastigar a noite barulhenta,

enquanto a mente

se prepara

para mais uma insônia dormente.

Um som diferente,

espichado, sutil, persistente,

que pousa repentinamente

e, então, silencia.

Porque cala o pensamento.

Ali, ao soslaio da noite,

no amarrotado da cama,

a sensação de alguém lá fora,

estranha. E havia. Um brilho indefinido,

quase desnudo.

E quando, de repente,

tudo fica muito quieto,

o medo parece atear fogo incerto

na vigília seca.

Engatinhando pelo corredor escuro

até a vidraça da cozinha,

o olhar sorrateiro

vê a pequena nave na grama do jardim,

botando ovos violáceos

bem onde dobra o vento.

Então, com a voz sumida,

fingindo que não está,

deixou a gravata de seda italiana

pendurada na maçaneta da porta,

a cashemere inglesa no corrimão da escada,

o recado num bilhete: 'saí '.


(em 17/03/010)

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Um ente querido nos acena do Infinito

Nossa existência humana é surpreendente



E trágica



Vivemos como se fôssemos únicos



O instinto nos empurra às cegas



e o pincelamos com matizes de falsa nobreza



Um ente querido se foi hoje



Praticamente jovem e sofrido



dor que o acompanhou por 15 anos



Diz um outro ser querido



que há sempre um lindo propósito



até mesmo na doença



Outro ser querido diz que a terra



silencia para absorver as estações



Quero crer que nossa passagem



serve, afinal, para despojarmo-nos



de tudo o que construimos



com um único propósito:



o de sermos antiUniverso





(in memorian de Denise Campana, pessoa que conheci com raridade)








terça-feira, 24 de julho de 2012

Imaginamos a vida e ela nem nos sonha

Não somos uma raça evoluída e nem especial

Tolos os que creem nisso

Simplesmente estamos aqui

E fazendo a maior bagunça

A vida, não. Segue impassível

ilesa, silenciosa, soberana

Até o que para tolos humanos é morte

para ela, é vida em todos os sentidos

e direções.

Nada perde

Nem sabe quem somos

apenas que estamos

A imaginamos bela, forte

Ela nem nos sonha

Está em tudo

Nós?

Não estamos com nada.

domingo, 22 de julho de 2012

Novos malditos contos de fada

...

Não era uma vez

Foram várias vezes...

Lá vinham eles

debruçados sobre o berço

babando

rosnando

dentes podres à mostra

um hálito fétido

e unhas feito punhais

Destilavam estórias de ninar

pesadelos

O mar bravio

o navio a pique

a noite tenebrosa

um céu de arrepiar

e trovejante

assoviava a tempestade

a tripulação destemida

alucinada

cantava:

rum, rum, rum

um trago de rum

e cortamos a cabeça de qualquer um...

Saque
pilhagem
piratas da alma ,
tesouros,

segredo,
armadilhas,

um X
na trilha de bobagens :
pedacinhos de miolo de cérebro

Lá vem a fada:

gritam os céus

enfim

foda-se!

Sombras à sombra

Às escuras

tateio a tua sombra

que

às claras

manuseias a minha

À luz

manuseio tua sombra

às escuras

tateias a minha