quarta-feira, 4 de abril de 2012

A Chama que nos chama em densidade acesa


Éramos como aves
em revoada
buscando o horizonte solar
vôo em rota desgarrada
saimos atraídos pela via plásmica
ante inesperado abandono
de casa
Ao voarmos
levamos a súbita semente
transparente
de luminescência ímpar
aos pares
ainda em infância
cósmica
Percorremos infinitos remansos
caminhos
ares
como buquês floridos
que, agora,
fora de órbita,
a prumo de anjos,
em cada asa
nos alegram o regresso, o retorno,
nos levam de volta ao ninho
ei-nos
raízes aladas
- plantamos cada dor
em cores
perfumadas

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Solidão,um hálito cósmico

À sós


soamos


chiamos


tossimos


espirramos


roncamos


ouvimos na pele


dentro e fora


o chocalho de uma serpente

zune às tontas


asas de mosca varejeira


dentro do quarto, à noite,


o violino amador do pernilongo


na grama urbana,


quase extinto,


estridula o grilo


o canto da cigarra


abre o outono


o galo cacareja


à temperatura da madrugada


tem zumbido


besouro

o coachar da rã


estala a vela acesa


cheiro de mel


o resmungo humano


o chiar


estrilar


chorar


Cadê o céu?


E a solidão?


Se abana o Cosmo










sábado, 31 de março de 2012

Circos e zoológicos, qual a graça, e a lógica?


Idi Amin no pan-óptico



EULÀLIA JORDÀ-POBLET
Médica e ambientalista - eulaliafjp@hotmail.com




Toda a vida do gorila negro nomeado burlescamente de "Idi Amin" transcorreu como um espetáculo para a população da cidade de Belo Horizonte. Paradoxalmente, ele nunca conheceu seus edifícios por ser cativo de um decadente presídio chamado zoológico.
Nessa peça, quase todos desfilam como figurantes, divertindo-se, mesmo que por ingenuidade, com a desgraça do grande símio condenado a cumprir o papel de bufão. Com sua morte, a tragicomédia interrompeu-se, deixando uma pergunta vir à tona: de onde teria vindo esse estrangeiro?
Sua documentação apresentou-se incompleta, como reportado em jornal local. Algo comum entre as vítimas de tráfico. Supõe-se que tenha nascido por volta de 1973 em algum lugar da floresta equatorial do Congo - lugar onde a proteção dos animais nunca foi prioridade -, de onde teria sido levado para um zoológico francês. De lá teria sido negociado como um escravo e trazido para Belo Horizonte.
Chegou a essa sua derradeira prisão, da qual nunca mais iria sair, com dois anos de idade. Cumpriu pena maior do que a máxima para os animais humanos que cometeram crimes gravíssimos: 39 anos.
Pela lei das probabilidades, sua mãe deve ter sido morta por caçadores, ocasião em que deve ter se agarrado ao corpo inerte, tornando-se presa fácil para os traficantes oficiais e não oficiais. Essa história nebulosa é cuidadosamente omitida, criando-se o álibi de que o zoológico é um lugar importante para a "preservação das espécies".
Não só "Idi Amin" foi um dos sofridos bebês gorila afastados precocemente de suas mães, mas também "Dada" e "Cleópatra", falecidas com pouco tempo de chegadas à sociedade do espetáculo. Pudera! Como ele, tiveram que enfrentar o sequestro e as mudanças de cárcere para cárcere; a ausência do aleitamento materno - que costuma, em condições normais, chegar aos 3 anos de idade -; deficiências imunitárias geradas pelo estresse; a barbárie do transporte; o isolamento da sua sociedade de gorilas e da planície africana; o banzo; e, finalizando, a superexposição em ambiente estranho.
"Idi Amin", milagrosamente, sobreviveu, mas perdeu em cheio para o tédio, simbolizado por seu melancólico pneu sempre a tiracolo. Como os demais gorilas em cativeiro, tornou-se tímido, ensimesmado; apegou-se aos tratadores, numa espécie de síndrome de Estocolmo, aquela na qual a vítima, em uma estratégia de sobrevivência, identifica-se com seu captor.
A lógica dos zoológicos obrigou "Idi Amin" a viver em um pan-óptico, a se mover durante toda a sua vida em uma arena circular, onde, de qualquer ponto escolhido, o visitante inoportuno pudesse visualizá-lo. Colocado no centro de risos, caretas, sons incompreensíveis, diariamente, o gorila foi massacrado até tornar-se uma caricatura de si mesmo. Agora, com a cadeira de bobo da corte vaga, ainda querem trazer outro gorila para perpetuar o círculo vicioso dessa tradição nefasta.






(Publicado no jornal O Tempo, BH, MG 19/03/2012)

quinta-feira, 29 de março de 2012

A pedra, o espinho, a água

Se carregas teu mundo nos ombros



andas cambaleante e trôpego pelo caminho



acordas, teu sono é um farol gigante


apagado



que levas a alimentar as sombras



do teu gesto arrogante



se te escondes debaixo de tua vida de escombros



Tu és teu próprio espinho


em tua vida errante



Se tropeças carregando tua bagagem pelos atalhos


arrastas-te pesada e ofegantemente



tua própria luz ao fundo te levas



escondes a tua mentira numa verdade


qualquer



espelhas-te no alheio





Em pé na areia cediça


dizes que és uma pena


e pesas feito pedra



Levantas teus braços e pedes ajuda



juntas tuas mãos vazias e impuras



limpa-as como à tua alma ferida



não sabes a medida de teu barco que navega



em chão e enganas teu próximo



gemendo como se te afogasses em água


seca



segunda-feira, 26 de março de 2012

Casa simples

Nasci em uma delas

Quintal com manga espada

e jambo

Uma casa limpa

dois quartos

duas salas

uma copa

cozinha e banheiro

Janelas rentes à calçada

A carroça que entregava pães

à cinco da manhã

O guarda noturno apitava

de hora em hora

Radio AM e vitrola

Telefone com quatro números

Telefonista para interurbano

A casa, muito simples, era até espaçosa

confortável

Mas, nós, não.

Faz tempo

e não faz