sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Zumzum

O zumbido

da abelha

na fresta

da telha

deixa um naco

de tarde

roído

Passa a sombra

do tempo

na janela

rente

ao assovio

do vento

despido

(título habilmente sacado por Marialice)



quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

A exuberante vida solamente adulta

Conheço vários casais

e pares


que preferem estar mal acompanhados


a estarem bem à sós


A companhia de outrem


no dia a dia


os ilude


dá-lhes conforto social e imoral


mesmo compartilhando


a cumplicidade de um privativo


azedo e estressante

cotidiano


parecem sócios de um desmazelo


envernizado quando saem às ruas


Coisa velha, antiga

que os  une em 

 covardia


ante uma possível insólita

solidão

corajosa


frota escura de mal-amados


Mas, que bela luz

como a de um dia


de outono

- maio -

 talvez


uma noite de inverno coalhada de estrelas,


é a que tem a própria

intragável

companhia,

mas, pelo menos,

é  sua

Chove no molhado

Creio que uma parcela considerável da população brasileira
está caladamente estarrecida com os estragos do clima
Creio que uma parcela considerável dos ministérios
está caladamente gargalhando com as verbas roubadas para isso
Creio que uma parcela considerável dos habitantes do planeta
está se dando conta da monumental conta a pagar
e, sinto muito, não é de hoje e nem de agora
Todas esses absurdos tiveram e tem a velada conivência
de uma considerável parcela da sociedade
A maioria confortável olhou à distância
Continuou sua vida porque pagava a outros
a limpeza de sua sujeira
pagou vilamente para enterrar seu entulhos
pagou sutilmente para descartar seus monturos
pagou satanicamente para eliminar seus oxiúros
e dos outros
como a salmonella
a dengue
a aids

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Expresso Carreto Vitalício: levamos sua vida de lá para cá e viceversa

Mudanças



Ei-las a toda hora



Todos já fomos vítimas desta sina itinerante:



quando o sonho nos desperta



quando a casa cai



quando o barranco escorrega



quando o buraco nos atrai



quando a felicidade bate à porta



quando o empréstimo não sai



quando o sino toca



quando o time perde



quando o leite derrama



quando a cachaça pinga



quando o amor acaba



quando a conta chega



quando a barra pesa



quando enfiamos o pé na lama



quando tem boi na linha



quando escapamos por um triz



quando o que só temos a fazer é chorar

ou sorrir



domingo, 15 de janeiro de 2012

Viver muito é não se viver mais

Todos gostamos da vida



- ou não?



Quanto mais vivemos



mais morremos



Diria Ari Bacardji,



exímio psiquiatra:



não vivendo



cremos que



não morremos



Eis a incógnita



Ao longo do tempo



vamos



e quanto mais vamos



vemos



Não somos mais nós



mesmos



Olhem para trás



o que se vê?



Tolices



Faríamos tudo de novo?



Não.



Faríamos melhor?

Talvez



Pior!:



não há retorno.



Quanto mais avançamos



mais nos perdemos de nós



Seguimos felizes



ou infelizes



apagando-nos



Não importa o que façamos



Lá estamos



a sós