quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Kitsikis

Gosto de quem leva a vida no peito


no braço
com jeito
apaziguado


de quem não se deixa abater


na falta de espaço


desamarra-se do mundo


desatando o laço

não perde por ganhar-se


 ganha por perder-se













quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Caminhos Intransitáveis

Vocês reclamam do trânsito
da babá
do cozinheiro
da empregada
do garçom
 das enchentes
dos filhos de quem tem filhos
dos que não querem filhos
do casamento
do namoro
da solidão
Vocês reclamam das contas
do vizinho
da loja
do vendedor
do padre
do pastor
do ateu
de quem acredita
de quem duvida
Vocês reclamam da tv a cabo
do acesso digital
do resultado do futebol
da cerveja
da porção à mesa
da cor da roupa
da cor da pele
do cabelo
do cozido
do cru
do nu
Vocês reclamam da sogra
do gato
do cachorro
do cigarro
dos traficantes
da sobra
da falta
da droga
do remédio
Vocês reclamam dos juros
dos eletrodomésticos
dos celulares
do sofá
das baladas
do carro
do cigarro
da pressão alta
da diversão
dos Ets
do triângulo das bermudas
da ilha do biquini
Vocês reclamam da polícia
da milícia
da missa
do pregão
dos leilões
dos roubos
dos crimes
das escolas
da cracolândia
das favelas
Vocês reclamam das praias
dos rios
das cachoeiras
das lagoas
de gente que vive à toa
de quem mora no morro
na planície
à beira dos rios
nas montanhas
na linha do trem
do mal
do bem
Vocês reclamam dos filmes
dos atores
das novelas
do lixo
das mazelas
do síndico
do elevador
do ponto de ônibus
do shopping
das academias de ginástica
da plástica
Vocês reclamam da Etiópia
dos USA
do Irã
da Nigéria
 Israel
 Afeganistão
Europa
Canadá
Japão
América latina
das falhas geológicas
dos desertos
Vocês reclamam da corrupção
da honestidade
do trabalho
da pobreza
da riqueza
do sono
do abandono
do asfalto
e do paralepípedo
Vocês reclamam da companhia
do vazio
do cheio
da chuva
da seca
da colheita
da praga
do calor
do frio
da neve
do musgo
Vocês reclamam
da vida
da morte
da saúde
da doença
da cura
do beco sem saída
do fruto
da preguiça
dos efeitos especiais
Vocês reclamam da gramática
da matemática
da física
da química
da biologia
dos inteligentes
dos banais
das pesquisas
das descobertas
Vocês reclamam de Deuses
dos infernais
dos pacíficos
dos atormentados
dos mansos
da Lua
do Sol
dos planetas
do Universo
Quem são vocês?

domingo, 1 de janeiro de 2012

Acordei! De novo...

Dia primeiro do ano
de quantos?
Por aqui, 2012
nos brasis
Logo de cara, café
xixis
água
mais café,
mais água
xixis
Um caniço nicótico
entre a varanda e a TV
Quem?
O Papa
Basílica de São Pedro
Roma
Itália
- claro que foi a algoza de meus nonos -
e sua lotação de filiados
crédulos e portentosos
Cheguei na hora da hóstia
ao som de um coral de homens
na platéia
ora, pensais, atéia
mais homens de fraques, smokings
as damas, senhoras e mulheres de preto
outras e outros de si mesmos
Fora os 'pecados'
uma manjedoura abastada
expõe a réplica inerte e ariana de um
 menino Jesus, o pobre, gorduchinho
cabelos acobreados
olhos azuis
sozinho
bracinhos querendo abraçar
perninhas querendo xispar
em berço de enfeites majestosos
castiçais de ouro,
velas brancas
puras
A lente da TV crava o piso do chão
foca o Papa
lá longe
bem apartado
da multidão
Uns sentados
outros de joelhos
A missa, graças, estava no gran finale
Mais graças, ainda,
perdi o sermão
Mas vidrei nos acessórios
tudo em ouro
o anelzão anular direito do Papa
'Papa Tudo', como dizemos aqui às escondidas
e às claras
O trono é isso
para não dizer pior
As hóstias
de boca em boca
de améns
um luxo imensurável
E fui acordando com o café
os olhos
o nariz
o estômago
os intestinos
o coração
nada em mim é mais musical e religioso
que a poesia latrinal

O silêncio, a dor e as labaredas

 
 
 
 
que eu possa
adormecer
acordada
observando
o dia
e a noite

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

O maciço compacto de tiradentear



Tiradentes tem logo um impacto,
uma torrente, um rumo contundente,
a Serra São José, exuberante,
presente.
Abraça incontestável história, viva, perene, de Tiradentes.
O Alferes, 
 formoso, pequeno gigante.
Vá até ele, dê a sua mão,
olhe nos olhos de quem não para de olhar você.
Porque vê tudo ao redor, incontinente.
A cidade, de quem mora, de quem chega,
mantem-se muito e pouco rotineira.
Aberta, reluzentemente decente, religiosa.
Crê em leque de fé.
Abertamente.
Tiradentes, cidade,
cresce rapidamente
devagar.