sexta-feira, 30 de julho de 2010

A importância do Ontem


Fui a um café

com Don Dieguito

pão de queijo

e conversas

na saída, demos de cara

com Amarok e Tiguan

Não há como explicar a plasticidade

do tempo

Sei que foi ontem

mas ainda é hoje

uma aparente realidade

inconsumível

para reles mortais

como eu e ele

Só podemos sonhar

Tamanho, forma, cheiro

tecnologia, preço

Quanto custam?

Mais de cem mil reais

Bagatela

se os vê ao vivo

de um viver em dimensão

à ré

demos ré ontem

Confessadamente

Imagine

então

o resto que temos por continuar:
sem caber em ruas
sem caber em vidas
sem caber em planos
sem caber em futuros
Boquiabertos

Em branco


Começa a florada do Ipê

que

lembra a neve

a nuvem

a calma
o algodão

a prece

no idioma Tabebuia roseoalba

quase instantâneo

em composição

sua efêmera beleza alva

traz o piscar do eterno

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Sem plural

Me sinto sempre desconfortável
ante o sentimento de perda
e o sentimento de posse
Porque eles não têm plural.
Saudade é saudade
e ciúme é ciúme,
não importa a intensidade, a densidade,
a quantidade.
São únicos na desgraceira
na pasmaceira
na maluquice
no plantar bananeiras
São de inigualável
singularidade
Você sente ou não
Pode até escondê-los
camuflá-los
maquiá-los
explicar tim tim por tim tim
Só não pode multiplicá-los
São e pronto
saudade
ciúme
Por favor, não caia no pecado
de acrescentá-los aos esse
(sssssssssssssss)
Descasque-se
despele
escalpe-se
descabele-se
apunhale-se
mas, mantenha-os na grandeza
singular
Já é muito.

Náufragos sem mar


São as tormentas
que já vêm engarrafadas
prontinhas para consumo rápido e rasteiro
nos embriagam
numa overdose de medos
fingimentos fugazes
verdades vorazes
e vice versa
nos mins
distanciamentos
em que a noção de existir não tem noção
existem
Sem rios e mares
de pragas
aos rasos atávicos
sucumbimos
rasgando em seco
vestes de espumas raivosas

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Que venga el Toro


Muita gente acha e pensa que

nenhuma dor existe além do humano

Não dói a árvore cortada

nem a sede do rio

muito menos o nelore no pasto

Bocas e estômagos

haja

ventres e testículos

haja

não dói o galinheiro

nem a pocilga

Não dói a queima das florestas

nem o petróleo no mar

nem a mina de ouro e diamante

e para nào ir mais adiante

adianto minha contemplação

aos espanhóis que se doeram

e se renderam

à dor descomunal da ignorância.