quinta-feira, 6 de maio de 2010

Uma rua solitária com berros cavernosos em solidão à noite

(foto/Terra)
Era o jogo entre Corinthians e Flamengo

Nos dois primeiros gols da partida

uma ou duas gargantas urravam Gol, ...
acrescido de palavrões
lançados raivosamente

esticando-se aos decibéis máximos das cordas vocais

enquanto a vizinhança quietamente dormia

ou apenas fazia um sono chegar

Era mais possante o silêncio da cidade

Em algum bairro mais distante, magro foguetório

Calou-se o brado solitário e animalesco na segunda etapa da peleja.

Talvez, o homem da caverna não pode ouvir mais seu próprio eco

olhando a TV LCD 42 polegadas de derrota e frustração ultra moderna.

Latas de cerveja amassadas entre os dedos neanderthals

arrotos azedos

gases, azia, provocados pelos vitoriosos e ácidos 2 a 1

que não foram suficientes para devolver a cunha ao

'fenômeno' do futebol, hoje envolto na balofa e lenta

sombra do fracasso.

Não há quem o liberte dela.




terça-feira, 4 de maio de 2010

Eu, Riviti, Bob Dylan e Moçambique

Seriamos nós
mais ou menos em 1975
ouvindo Desire
até 1976
em diante
tantas outras faixas
enquanto lustrávamos com o traseiro
magro
as carteiras do curso de Jornalismo Cásper Líbero
à noite, à la Paulista,
avenida estonteante
denominada corredor financeiro
pelos próprios que ali iam e vinham vertiginosamente
em gravatas apertadas,
ternos apertados,
vidas apertadas
embora nos dessem a fantasia de riqueza e propulsão.
Explodia em meus ouvidos a versão Mozambique
original
do nada virginal Bob Dylan
Aulas, aulas, aulas,
café, cerveja, stanheguer,
cigarro, sanduba ao molho
tártaro
Não viramos bárbaros.
Transmutamo-nos em seres voláteis
de intrínseca concepção
flutuante entre a realidade e a realidade
vertiginosamente aberta
e de dimensões incompletas.
Nada a completar, se me permitem,
só a acrescentar,
como Mozambique.

A ti, o mal de ti.

...
Corto tuas lágrimas secas em asas



fatio teu arrepio covarde em pétalas




lavo tuas pegadas em brasas



vaporizo tuas digitais ao incenso



levo ao cozimento teus fracassos



banho maria para teus acertos



pimenta vermelha nas tuas veias



sal grosso na tua intolerância



alho para teus erros arrogantes



espremo limão cravo nas tuas palavras de boca
cheia de babalus



alecrim salpicado no teu egoismo
tão solidário a outros egoistas
como confraria de gulosos comedores de papel moeda
argamassa, blocos de concreto e asfalto
Tu, que engoles florestas, cerrados e mangues
bebes ainda o sangue e mastigas a carne
do que te devoras
lembra-te do rio que tens ainda para secar
consumindo teu próprio espelho
Para este teu mal, só um outro mal a te absolver e curar:
tua própria ressurreição.








segunda-feira, 3 de maio de 2010

Abro o bar potável

Me deu sono



a noite é pequena



ainda



me olha com luar escancarado



a cena me ensaia a 360 graus



visto-me de um trago



banho-me em um drinque



perfumo um gole



sem página impressa de jornal



folheio a TV



rabiscam de nuvens

a alvorada

ventos contralisios

trazem calmaria

e linhas equatoriais

ao meu sofá

de ondas cerebrais

descanso em meu hemisfério Sul



Pianíssimo do Papagaio Testamenteiro

"... Algumas pessoas precisam apagar o fogo e acender a luz...próprio e própria."