domingo, 14 de março de 2010

estómago e mentes libres

Dizem que o Lula cometeu mais um pecado político
quem sou eu para refutar...:


o de desprezar prisioneiros cubanos em greve de fome.


O que dizer de alguém que fala pelos cotovelos


não tem papas na língua presa


come mais que a boca


transforma a embaixada brasileira na casa da mãe joana


doura a pílula quando seu séquito é pego


com a mão na cumbuca,

a boca na botija
e enfia o pé na jaca?
Presos políticos cubanos,
parecem baluartes humanos da resistência à revolução
e à condução da mordaça cultural e individual,
que há décadas
efetivaram no cargo de 'chefia' UM dos seus idealizadores
- maneira delicada de se dizer que se trocou uma ditadura
por outra.
São muitos e tortuosos , excusos, os descaminhos
de ambas as políticas, praticadas e com afinco.
Dá-se abrigo e proteção a um terrorista
chamado Battisti
e a um escorraçado chamado Zelaya.
Ah, os tempos em que até Lula foi um preso político...
Greve de fome? Para que?
E os amigos que ainda acreditavam
e o defendiam? Com apoio, inclusive,
de outros países...
Lá está onde está, trôpego, roliço, mas sólido
A embriaguês do poder dá fôlego
sustenta, alimenta, ilude
e a fome física
passa,
só fica a vontade de comer
e beber, cada vez mais.
Glutões de posse .
Quem é o prisioneiro nesta história?...

PS..iu (O presidente Obama também deu uma entortada na gulosidade, fino só por fora, engraxou o colesterol pra valer, passou da conta, como o próprio País...Serão protuberâncias inerentes ao cargo?)





sábado, 13 de março de 2010

Para Glauco, simplesmente

Não, não o conheci pessoalmente,
mas o irmão dele, não menos talentoso
e bom, Pelicano
Em Ribeirão Preto, onde ainda reside.
E resiste.
Mas, Glauco, quem não o conhece ?
Quem não ria com suas satíricas personagens?
Agora,
um minuto sem nenhuma graça
um minuto de piada de mau gosto
um minuto de puro mau humor
um minuto sem tempo
e sem as tirinhas sacais
fulminadas por tirinhos fatais
Lá se foi o traço histriônico
da crítica
do deboche
do sarcasmo
num desenho de gibi
que acordava
alertava
numa fração de inteligência
perspicaz
desmantelando a hipocrisia
a mentira
com muito humor
Secou a tinta
quebrou a ponta do lápis
manchou de sangue e luto
a página ilustrada do jornal Folha de São Paulo
Uma eternidade para o raro coração
uma eternidade de razão
uma eternidade para o universo cartum
que ora, certamente, flutuam
em perfeita zombaria
da caricaturinha encarnada
que puxou o próprio gatilho...

quarta-feira, 10 de março de 2010

um sábado de babar

(aqui, apenas um manjar quotidiano em casa)

A começar por qualquer manhã ensolarada

com zumbidos de marimbondos
rajadas de calor e vento
depois,
golinhos
de

café sem açucar;
na tigela 'saudável',

favo de mel,

leite de soja e cereais;
confabula um pãozinho francês amanteigado

- seguem uns cigarrinhos
ao intervalo,
viradores de páginas ancestrais -

lá vem o dia em casa,

tranquilo,
bajula frestas,
cílios, pestanas,


abre janelas e portas


O jardim se completa
com recantos de beijos americanos

camarões amarelos e vermelhos

ora pro nobis

manjericão

washingtonia

tuia jacaré,
permeia bocadinhos de alvenaria com


rabo de gato


azedinha


podocarpo


bromélias tigrezas


pata de elefante


ervas ciganas,
estas têm adereços de incenso
reza,
todos os demais, assim como
a rega,
a grama esmeralda
o chão São Tomé, canteiros com pedras escravas,


ao enfeite de cristais,


cacos de minérios,
recuerdos de beira de estrada,


outras de cristalização magmática


- afina-se a paisagem doméstica
com a música,

o fogão,
um menu caseiro
no qual

tudo promete
num singular plural de sabores


Remexem a vida em réstia de carinho:

vasos de antúrios

raphia

cafezinho ,
plantados em chão
dama da noite,
videira ao rebento,

guerreiros de entrada
São Jorge em espada e lança,
roseira,
complementos acertados
sem estranhezas
de sutilezas bailarinas
Inspiram um cardápio sabatino,
degustado aos vinhos,
rubros,
que despertam agudezas,
e descruzam os 'xis',
porque o amanhã é domingo,
hipoteticamente, desagua na segunda feira,
o rugido da fera semaneira,
num tempo quase outonal:
bezuntamos uns agrados
com molho de pimenta biquinho
morangos e abacaxi
- arroz cateto se amorena com lentilha,
gergelim, ao dobrar olfativo da panela -
segue de estalo algo que combine
com alecrim, cebola, pimenta do reino,
tomate cereja, alho de pouquinho,
um filé suino,
mineirinho,
azeite Borges,
trufa negra,
DVD A-ha,
ou Noel Rosa,
ou Amy Winehouse
- replicam aleatoriamente clics de inspiração
enquanto fumega o caldeirão de possibilidades -
Colheres de fibra de coco,
revolvendo particularidades...
Sem particularidades.




sexta-feira, 5 de março de 2010

a coruja buraqueira faz a noite piar (Athene cunicularia)

ouça
a noite
no piar
da coruja
sortuda
de olhos verdes
lânguidos
com biquinho recurvo
madrugadeira
que faz alarme
em assovio
esticado e estridente
se há perigo
presente
o cerrado
onde habita
essa rapineira
corre o risco
de virar piscina
com churrasqueira
pense nisso...

pesa a pena leve sem a leve pena do pesar

faz a águia seu voo
cada vez mais alto
até ser o mínimo ponto
escuro e veloz
solta ao vento solto