quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Ô, Humanidades, lembram-se de Biafra? Ah, o mundo não era globalizado e nem havia internet...A dor era longe demais para ser 'sentida'....

Devo perguntar ao Caetano,
de novo,
por que ele disse 'o Haiti é aqui' em 1993.
Ou ao Gil, mas este é presença invisível,
que ótimo:
... o Haiti não é aqui.
Sei lá, um ou outro. Qual a diferença?
Creio que foi graças à rima.
Sem pregos e cruz.
Lembram-se de Banda Aceh?
Álamo?
Melhor ainda: Pompéia?

Coral de arcanjos roucos

A afonia celestial
tornou-se uma epidemia
graças aos ouvidos humanos
moucos

por que dirige a sua vida na maior barbeiragem?

Há uma pilha de desastres





em consumo e atividade





outra em construção





o estoque de argamassa plásmica





está abarrotado




fede em valas, canteiros, acostamentos,




no meio fio,



lá está o rastro




do seu casco na direção

antes de entrar na próxima curva




que faz ao quadrado




fala-me do seu anjo





aquele arisco ali





escondido atrás da primeira nuvem





já vi que você gosta de tirar finas





de almas





passa de raspão nas outras quinas da existência





faz o maior cavalo de pau nas sinalizações





de consciência




vai no racha




sem freio




o seu som rompe tímpanos alheios




porque seu ouvido está entupido




cheio de alienação




e a buzina?

Jaz aqui voce, repentinamente,

graças a Deus , com sua ignorância e som,

quietamente...

Ao seu lado, sei não,

ouça o barulhão de quem voce roubou a vida

chapadão...

Ou voce acha que não vai ter continuação?...




































quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

A magnitude natural do caos sobre o caotico humano


A piedade de um



se equilibra no mesmo fio da lâmina devastadora



da crueldade do outro



Benevolente, a natureza decepa vidas instantaneamente



o outro vai cortando fatias



aos poucos e lentamente



Agora,



ai de ti, Haiti



Antes era a escravidão,


depois,

a trama política lambendo a servidão,


aí veio o furacão,


o tsunami,


a floresta que virou carvão,


e revirou o chão em lama .


Agora, o desastre em pó


derrete teu choro


em cinzas

Teus gritos


se partem em escombros

Teus gemidos


despejam lixo e entulho

sobre



filhos, irmãos, pais, vizinhos, colegas, amigos.



Tua fome


tua miséria


sem estudo


sem diploma


caem como toneladas de pedras


sobre tua própria cabeça


rasgam com voracidade tua geografia


de cima a baixo.


A dor lancinante e insuportável


ecoa pela humanidade:

feito uivos noturnos de viralatas


Ai de ti, Haiti

O mundo ouve o roncar do teu


estomago vazio


abruptamente


Tua boca seca e


teu corpo quebrado em mil partes


estalam feito lenha no fogo


Não há água para linimento


nem para o alimento corriqueiro


A natureza mostra a face crua e nua,


só com um minutinho de contrariedade,


sacudindo-se do desmazelo e


te coloca no teu lugar: r u a.


Ai, Haiti,


tua bocarra de caimão,


espera o socorro

derradeiro.

De mão em mão, passamos o chapéu.

Na verdade, é socorro ao Planeta.


Pobre de ti.

Estavas em último lugar e estás prestes a perder até isso....
(foto veiculada na infernet)































domingo, 10 de janeiro de 2010

Mãe Joana, barriga de arrimo, a casa cai, sim

Não só as tuas tripas
teus peitos
tua estima
tua renda
aprenda, Joana
caem também


tua geladeira


teu tanquinho


sabe aquele armário de aço?


a TV de novelas


novinha e moderna


teu celular pre pago


tua cama de casal


o sofá lilás


a toalha florida


és capaz de imaginar?


aquele comodo ao lado


pro churrasco
tua alegria
tua gargalhada a rodo
tudo cai
Te enganas
se crês o contrário


o fio de varal comprido


cai


tudo vai encosta abaixo


e se está no chão


reles


a terra também te engole


de supetão


cada prestação


sobra nada


não...


Quem liga pro teu balaio de gato


tua conta no magazine


tua penca de filho


escorregando em morro e favela


que nasce de riso


tagarelas
magrelas
e cairão também no choro
da miséria e da fome


que prazer enche teu ventre?


não sabes se é dor


obrigação


descuido


maldição


teu companheiro


pior que tu


só mora na cama


encontra macheza


no beco da vida sem saída


na cachaça


no raio que o parta


fazendo bicos


que dão noção


torta


de ação


aquele que gasta toda energia


com o cotovelo no balcão


falando de mulher e futebol


e te enche de porrada


porque o time não sai da segunda divisão


Joana, Joana,


pra ser bacana


segura o barco


nada de refrigerante


cuida dos dentes


cuidado com o colesterol


o diabetes


a pressão alta


fica no arroz com feijão


dá gosto


verdura de verde escura


cura o porre do sacana


com a benzedura da horta


feche as pernas


como quem fecha janelas e portas


segura a onda


que o mar é bravio


Tu és o pavio
Senão tu escorregas
como o teu chão