terça-feira, 17 de novembro de 2009

Tudo está lá fora aqui dentro

Deito-me e digo:
- amanhã farei tudo que é preciso
Acordo e falo:
- amanhã farei o que não consigo
hoje
E sigo
com o dia lá fora
aqui dentro comigo
como se fosse
um amigo
sem saber
que cada minuto
dessa hora
acontece
também
no
prato
do inimigo
sem o mínimo
pudor
de estar
bem ou mau servido
É assim
dar conta de tudo
no futuro
se o tudo nem se dá conta de mim?

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Interior aos recônditos 60' se não fosse agora

Grilos

aleluias

borboletinhas

besouros

ao som fantasmagórico

de uma

vozinha forte

de Dinah Washington

ao fundo

de numa noite

e seus coriscos

ao ilusório

na rua, jaz em pleno movimento

a partenogênese

quente e grudenta

vadia em cães,

gatos,

pulgas,

carrapatos

um papel de bala

sujo

na sarjeta

uma penca de erva daninha

toco de cigarro em série

pedriscos

de sapato chulé

um treco

de existência
sedenta
arranha a memória
vazia
chia
feito casa assombrada
e fria
qual porão de navio
pirata
que balança no revolto
crespo
da tempestade sombria
é madrugada
sem companhia
até
teias aracnideas
desenhando a face
urbana
de periferia
sem impasse
como um jardim de mato
prestes
a ser degolado
pelo cortador de grama....











Gueguê,codinome Greta Garbo, com olhinhos de jaboticaba


te conheci e te amei
também ao seu fiel escudeiro
orelhudo
imediatamente à sua 'mãe'
humana
você
díspare nos pares

guerreira suave

botequeira

doce do planeta

carinhos sutis

como sutil é sua existência

dentes afiados

à mostra no momento preciso

como um sorriso

clara às claras

pedacinho de sol

um afago

de rabo

abana meus temores

um balançar de orelhas

brisa como beijo

para os olhos

Gueguê

que mundo cão

para você

tão rueira

tão companheira

patinhas

como asas de anjo

libélula

recuse esse caminho

como destino

seja a matéria

dos seres de crédula

luz

terça-feira, 10 de novembro de 2009

aos humanos de plantão

em algumas regiões do mundo
neva para um prenúncio de natal
aqui chove
e é um aguaceiro com luz
diferente
refresca, rega, lava a tarde,
levanta a noite
para mim o anúncio de novembro
com esta chuva já é dezembro
sinto o cheiro no ar
das energias de final de ano
sei que milhares
já estão com as mão ocupadas
para suprirem o tormento
pungente
dos que, aos milhões,
nem sequer se dão
ao prazer, simbólico ou não,
deste aniversário ocidental,
oriental,
de um ciclo que se fecha e se abre
sem a mínima noção
gosto, sim, de finais
que traduzem transição, passagem,
milhagem,
revigoração,
outras portas se abrem
ao gosto sim e não
ao verbo
à linguagem
à bobagem
à miragem
Natal sou eu
como diz Canova
em aniversários
nascemos, comemoramos,
rendemos,
estragamos com agrados
um prato do dia,
à mercê de banana
com melancia,
adicionando um cardápio diferenciado
champagne, fogos, castanhas
figos, mexilhões
folclórico
arroz, peixe, farofa crocante,
sinos, música,
vida nova
celebrada
com uma paridade
desigualada
à regência do sacrifício
à alegria do tocante
compartilhar
de cada um
somos
então
o plantão
de humanidade

domingo, 8 de novembro de 2009

não somos árvores,apenas pluriformances


e ainda assim


fincamos pé


não arredamos


do osso


sedimentamos


planos e sonhos


com areia, cimento


cal


alimentamos raizes


com pneus, motor


gasolina


elásticos



'voamos'



não saimos de onde estamos


presos



aos ferros das tarefas



movimentamos


à edificação do esmo


habitamos


em peso


temos até


marcha à ré


imaginamos


que nosso ser é o tal